Wednesday, December 19, 2007

Para tú...

Fado do Ladrão Enamorado

Vê se pões a gargantilha

Porque amanhã é domingo
E eu quero que o povo note
A maneira como brilha
No bico do teu decote
E se alguem perguntar
Dizes que eu a comprei
Ninguem precisa saber
Que foi por ti que a roubei
E se alguém desconfiar
Porque não tenho um tostão
Dizes que é uma vulgar
Joia de imitação
Nunca fui grande ladrão
Nunca dei golpe perfeito
Acho que foi a paixão
Que me aguçou o jeito
Por isso põe a gargantilha
Porque amanhã é domingo
E eu quero que o povo note
A maneira como brilha
No bico do teu decote

Rui Veloso


Sunday, December 02, 2007


Fico aqui sentado, parado, desgastado. Nao deixo transparecer o poder da verosimilhança que cai sobre o meu mundo.
Quantas vezes nao somos mais, daquilo que nós somos? Quantas vezes aquilo que somos nao é o que somos todos os dias? Quantas vezes nos esquecemos de quem somos...

...Se fosse o último dia da tua vida, farias o que fazes todos os dias?

Tuesday, November 06, 2007


Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo (além da Sifilis claro...)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,trucidar
Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora...

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa

In Fado Tropical

Monday, October 29, 2007

Quotidiano

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão

Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
.
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã


Chico Buarque
1971

Saturday, October 06, 2007

Liberto um beijo, solto um abraço.

Em vão vivo do coração,

Durmo quente num regaço,

Acordo na solidão.

E no meu jeito trocista

De deambular pela rua,

Sei de cor essas moradas,

Mas não me lembro da tua.

Pois no expectro da amargura,

Giro em torno da destreza

De ser sol que pouco dura,

De ser eu todo tristeza.

Wednesday, October 03, 2007

Piedra
La piedra no se mueve.
En su lugar exacto
permanece.
Su fealdad está allí, en medio del camino,
donde todos tropiecen
y es, como el corazón que no se entrega,
volumen de la muerte.
Sólo el que ve se goza con el orden
que la piedra sostiene.
Sólo en el ojo puro del que ve
su ser se justifica y resplandece.
Sólo la boca del que ve la alaba.

Ella no entiende nada. Y obedece.
Rosario Castellano

Monday, September 03, 2007

O pensamento realista do dia:
"... É mesmo assim, o homem é que tem sempre a última palavra: Sim Senhora!!!!..."
Anónimo

Thursday, August 30, 2007

...“Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo… Isto é carência! Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar… Isto é saudade! Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos… Isto é equilíbrio! Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente… Isto é um princípio da natureza!Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado… Isto é circunstância! Solidão é muito mais do que isto… Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma”...
Chico Buarque

Saturday, August 18, 2007


Paro no tempo e penso um pouco, há que ter tempo para pensar. No pouco tempo livre que tenho, sinto-me mais vivo que nunca. Tiro um cigarro do bolso, bebo um pouco desta cerveja fria e contemplo a cidade maravilhosa onde vivo, desta mais uma esplanada das muitas em que já estive. Nunca penso muito no seguimento da vida, mas há dias em que se deve dar atençao a este tema, porque há dias em que estúpidamente (ou nao) a vida passa diante de nós.

Por mais que o tempo passe há coisas que nao mudam nas pessoas, somos eternamente e inmutávelmente constantes. Temos apenas outra faceta social. Quem nasce velho morrerá velho, quem nasce jovem, morrerá jovem. O dinheiro, o poder, a classe, as coisas que sao banais, sao apenas variáveis que definem a nossa posiçao no mundo, mas o que somos nunca ninguém nem circunstância nenhuma mudarao. É pena que ainda hajam pessoas que se esquecem disso, que se esqueçem que sao jovens, só porque os anos os vao tornando velhos...

Thursday, August 02, 2007

2 cigarros e um samba
...
O espelho que reflectia a saudade.
Esse espelho ele fissurou...
Os olhos com que se via ao espelho.
Esses olhos ele cegou...
E aquela vida de sonho.
Essa vida ele matou...
E esses destinos que sonha.
Desses sonhos acordou...
Dormiu sobre um peito aberto.
Num abismo de indiferença...
Num jeito de longe e perto.
Morre vivo de doença..
...
Vive só de solidão?
Vive só de um coração deserto...

Luíz Bernardo

Tuesday, July 31, 2007

O que foi nao volta a ser
eu trago um buraco no futuro
traz presentes fugidios
e memorias de navios
traz tanta confiança
que se é sempre criança
mesmo quando nao se quer
pode vir algo melhor
embora sempre pareça
que o pior esta por vir
nunca se deve esquecer
que nao ha volta sem partir
e o que foi nao volta ser
o que foi nao volta a ser
e o que foi nao volta a ser
mesmo que muito se queira
e querer muito é poder
e o que foi nao volta a ser

Xutos & Pontapés

Grande Abrazo para todo o pessoal que está de férias e que eu invejo loucamente, principalmente para o pelotao da Ilha de Tavira, este ano o capitao do mato Luigi nao pode comparecer na luta :(

Monday, July 30, 2007

Walk Away

Oh no- here comes that sun again.
And (that) means another day without you my friend.
And it hurts me to look into the mirror at myself.
And it hurts even more to have to be with somebody else.

And it's so hard to do and so easy to say.
But sometimes - sometimes,
you just have to walk away - walk away.

With so many people to love in my life, why do I worry about one?
But you put the happy in my ness, you put the good times into my fun.

And it's so hard to do and so easy to say.
But sometimes - sometimes,
you just have to walk away - walk away and head for the door.

We've tried the goodbye so many days.
We walk in the same direction so that we could never stray.
They say if you love somebody than you have got to set them free,
but I would rather be locked to you than live in this pain and misery.
They say time will make all this go away,
but it's time that has taken my tomorrows and turned them into yesterdays.
And once again that rising sun is droppin' on down
And once again, you my friend, are nowhere to be found.

And it's so hard to do and so easy to say.
But sometimes, sometimes you just have to walk away, walk away and head for the door.
You just walk away - walk away - walk away.
You just walk away, walk on, turn and head for the door.
Ben Harper

Thursday, July 26, 2007



O OBJECTO

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

Ary dos Santos

Wednesday, July 18, 2007




Paz de Espírito


Das lágrimas contidas, rola um céu nublado
Do perdao rolam lágrimas de injustiça,
Das nuvens cai um peito apertado,
Pelo granizo que é em vao congelado,
No desdém da frieza da vida.
E porém neste veio sem rodas,
Gira a paixao, gira um poema de sonho,
Que de lado, vai girando voltas,
Em torno daquilo que é medonho
Trazendo paz, ternura e harmonia...


...Na paz de espírito descansem os inconstantes, aqueles que como eu nao se conformam com nada, mas que com tudo se alegram e que vivem, nao porque tem de ser, mas porque a vida é viver...

Thursday, July 05, 2007





De Repente

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes




Thursday, June 14, 2007

...Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir...
Mariza, in "A chuva"

Hoje vou falar das pessoas que nunca serao vulgares, vou falar daqueles a quem tiro o chapéu e faço uma vénia, das pessoas que foram em mim uma fonte de inspiraçao.
Por analogia a um bom jogo de estratégia, todos nós jogamos na vida aquilo que queremos, e somos quem quisermos pois tudo depende da nossa capacidade de dedicaçao e abstracçao em relaçao ao que nao gostamos de ser, e, da nossa capacidade de captaçao e absorçao em relaçao ao que gostamos de ser. Existem pessoas boas que passam e pessoas boas que ficam, mas todas essas pessoas vivem cá dentro, e sao um pouco de nós. Quantas vezes nao ultilizamos locuçoes que ouvimos alguém dizer, vestimos roupas como as que vimos alguém usar, fazemos e agimos com alguém nos ensinou, com os seus conselhos, os seus "puxoes de orelhas", a sua forma de ser e de estar. Olhamo-nos ao espelho e nao vemos apenas a nossa pessoa, vemos todas aquelas que passaram e nos ensinaram a ser como somos. Umas já partiram e nunca mais as vemos, outras já partiram de outras formas e a sua presença desparece da mesma maneira, até que chega o dia em que é a nossa vez de partir (seja como for) da vida das pessoas a quem inspirámos de alguma forma. Por isso minha gente, vale a pena aprender com essas escassas pessoas mais que construir projectos de vida sem cor, viver em lugares inóspitos e sem sabor, dar a quem nao quer receber com o mesmo glamour com que se faz as viagens de uma vida e se aprende com a escola do dia-a-dia. Às pessoas que me ensinaram a viver, a voçês que nunca deixaram que me perdesse da minha alma, nunca deixem o vosso coraçao ser um fraguedo, porque o meu faz parte de vós e comigo ecoa o ribeiro da liberdade onde sempre escutarei a calma da vossa voz...

Tuesday, June 12, 2007

"...Cuando la dictadura es un hecho, la revolución es un derecho..."

Frase liberdade do dia

Existem causas e existem coisas que nunca poderemos mudar, o que sentimos por certas pessoas também raramente o poderemos fazer, embora haja a ilusao de que isso é possível, o facto é que ninguém muda, a classe dos nossos defeitos e virtudes apenas se apura...


..."Outra enormidade actual é a ideia de que dois seres apaixonados podem ser "amigos". Isto é como querer que um vulcão sirva também para aquecer um tacho de sopa. Ofende tanto a amizade – ou o fogão – como o amor – e o vulcão. Ser amigo é querer o bem de alguém. Amar é querer alguém, e acabou. Se for a bem, melhor. Se for a mal é porque teve de ser. Um vulcão só irrompe de quando em quando, e ás vezes uma única vez. Como o amor. E o fogão dura quase toda a vida, como a amizade. Não haja confusão."...

Miguel Esteves Cardoso

in A causa das coisas

Wednesday, June 06, 2007


Onde vivo, eu estou, apenas sou, porque estou, onde começa o sonho, acaba a realidade e onde acaba o habitual e começa a saudade. Nao sei se sou, mas estou... No local onde me ardo e consumo, deixo passar o tempo e ele passa. Passa nos caminhos do dia-a-dia, passa quando me perco nas ruas das cidades que nao conheço, passa, porque tem de passar. Sou o Arlequim desta Colombina vida de Pierrot, sou o que sou, quando quero e nao quero, quando estou ou nao estou.
Quero-te contar as histórias das minhas viagens, quero-te contar como choro de rir, quero-te contar a minha dor nos silenciosos apelos, quero-te dizer as coisas que nao posso contar, quero-te, como sempre te tive, vendo-me a actuar. Sou o plateau de noites inesquecíveis, sou o plateau vazio das madrugadas, sou o plateau de todas as histórias em que fui o rei, o heroi, o vilao ou o cozinheiro. A minha vida é a sala de um teatro, nao tenho encenador e vejo as peças na primeira plateia...
Na comédia da arte em que quero viver, sou um mero espectador olhando-se ao espelho...

Friday, June 01, 2007

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço.
De noite ardo.

Vinicius de Moraes

Wednesday, May 30, 2007


As coisas que nunca te contei...

Nao há coisa mais bonita que a solidao,
E na forma de uma mulher,
Das cinzas de um perfume qualquer,
Renasce a fénix do coraçao.

Nao há coisa mais bela que o sonho em vao,
E o ruído que desembala e desperta,
Volta em jeito de sonolência incerta,
Ao sonho livre de outra paixao.

Nao há destreza mais louvada,
que nao ter inspiraçao,
A musa dos meus sonhos, foi o teu peito,
O desejo ardente que vive do meu jeito,
Sao outros seios, que amei como um pagao...

...Nao há distância mais curta que aquela que vida corre... Nao há porém caminho mais longo que aquele a que tristeza descobre... Nao há jeito melhor de viver, que aproveitar o jeito da vida sem sofrer... Há que pensar em cada coisa. Tudo tem o seu início e fim, há que querer descobrir isso antes que seja tarde demais... A vida é pra valer, tem sempre os olhos bem abertos, mas nunca te esqueças do que queres de ti, pode nao ser o mesmo que as outras pessoas buscam, afinal nos jardins da existência, os nossos caminhos, vao-se cruzar muitas vezes, mesmo quando nao nos apercebemos disso...Que Deus te abençoe...Vivemos juntos, mas vamos sempre morrer sozinhos...Nao tenhas medo de ninguém, teme apenas o teu coraçao, é preciso saber comunicar com ele...

Wednesday, May 23, 2007

One bourbon, one scotch, and one beer

One bourbon, one scotch, and one beer
Hey mister bartender come here
I want another drink and I want it now

My baby she gone, she been gone two night
I ain't seen my baby since night before last
One bourbon, one scotch, and one beer

And then I sit there, gettin' high, mellow
Knocked out, feeling good and by the time
I looked on the wall at the old clock on the wall
By that time, it was ten thirty daddy

I looked down the bar, at the bartender
He said, "Now what do you want Johnny?"

One bourbon, one scotch, and one beer

Well my baby she gone, she been gone two night
I ain't seen my baby since night before last
I wanna get drunk till I'm off of my mind
One bourbon, one scotch, and one beer

And I sat there, gettin' high, stoned
Knocked out, and by the time
I looked on the wall, at the old clock again
And by that time, it was a quarter to two

Last call for alcohol, I said,
Hey mister bartender, what do you want?"

One bourbon, one scotch, and one beer

John Lee Hooker

Sunday, May 20, 2007



Aviso do gaúcho amigo

Escuta aqui boca aberta
Pode engolir o teu ranço
Tu és mesmo corno manso
Eu comi a tua mulher
Voçê frescou, sabe como é
Me obriguei a dar um trato
E a culpa é tua ó ingrato
Por não dar prazer para ela
Pois tu não come o cú dela
Nem bota a cara no mato.

Tu sai pa beber cachaça
Volta falando besteira
Dá uma fodinha ligeira
Vira para o lado e já ronca
E é disso que ela tem bronca
É o que ela mais reclama
É claro que ela te ama
Só tá sendo mal comida
E embora seja inibida
Quer ser uma puta na cama.

Eu garanto que tu gosta
Que ela faça uma chupeta
Mas tu não chupa boceta
É um amante de bosta
Tu acha que ela nao gosta?
Ela me disse que adora
Ficou assim meia hora se retorcendo e gritando
E eu fazendo e chupando o grelo da tua senhora.

Não adianta ficar bravo
Nem me prometer dar tiro
O que eu disse eu não retiro
De ti eu não tenho medo
Mas vou guardar o teu segredo
Com o teu chifre eu me comovo
Não vou espalhar para o povo
O meu negocio eu respeito
Mas vê se fode direito
Senão eu como de novo.

Eu tou contanto pra ti
Eu fodi a tua patroa
Mas tem uma pergunta boa que acabou de me ocorrer
Se tu não sabe foder
E eu só uma vez atolei
Uma coisa eu encoquei
E um pensamento me vem
Que ela fode muito bem
E não fui eu que ensinei

Acho bom tu ficar esperto
Tem mais alguem de coronel
E a tua cabeça coçando, garanto que não é caspa
É um baita par de aspa de algum comedor piçudo
Que acabou dando graudo na racha da tua mulher
Se tu não dá o que ela quer
Tem mais é que ser...

Anónimo

Monday, May 14, 2007

Vamos brindar aqueles que já nao voltam...
Vamos falar das coisas que nao interessam, por vezes nao interessa falar de coisas sérias. A vida já deu muitas voltas, voltas demasiadas, para compreendermos que nem todas as coisas sao em vao. Ainda há gente boa e que vale a pena conhecer.
Por mais um copo que beba, sinto-me sempre no último, o vinho liberta a minha alma, deixa-me pensar nas coisas que me passam ao lado. Lembro-me de todas as pessoas que já conheci, amigos que nao sei se voltarei a ver, quando os rever. O mais complexo que há nas coisas que nos envolvem é a vontade de continuar em frente sem olhar para o que foi, seguiremos todos juntos, porque nao estamos sozinhos. Somos parte uns dos outros, ninguém precisa ter medo, juntos teremos muitos momentos assim. Bebemos o nosso vinho, com o mesmo folgor de antes, sentimos o calor daquelas fogueiras da praia, das noites eternas em que nada nos tiraria dali, deixando embalar a saudade num trago de maresia vendo o sol nascer. Um dia velhinhos diremos aos demais, vamos brindar aqueles que já nao voltam...
MANEIRAS

Se eu quiser fumar eu fumo
Se eu quiser beber eu bebo
Eu pago tudo que consumo
Com o suor do meu emprego
Confusão eu não arrumo
Mas também não peço arrego
Eu um dia me aprumo
Eu tenho fé no meu apego.

Eu só posso ter chamego
Com quem me faz cafuné
Como o vampiro e o morcego
É o homem e a mulher
O meu linguajar é nato
Eu não estou falando grego
Eu tenho amores a amigos de facto
Nos lugares onde eu chego

Eu estou descontraído
Não que eu tivesse bebido
Nem que eu tivesse fumado
Pra falar da vida alheia
Mas digo amigo, sinceramente
Na vida a coisa mais feia
É gente que vive chorando de barriga cheia...

Chico da Silva

Friday, May 11, 2007





Bom conselho


Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança


Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar


Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade...


Chico Buarque
De que vale

De que vale um protesto sem causa?
De que vale uma vírgula sem pausa?
De que vale um momento sem nunca o sentir?
De que vale uma ponte sem leito?
De que vale uma luta sem ter peito?
De que vale um abraço sem o repartir?


Quantas vezes parar não é desistir...
Só ficar a ouvir!
Quantas vezes esquecer não é pra fugir
Quantas vezes calar não é
consentir...
Só parar pra ouvir! Quantas vezes sorrir... (não é a fingir)!

De que vale o avesso sem direito?
De que vale o remédio sem efeito?
De que vale ter a força sem o arremesso?
De que vale a partida sem destino?
De que vale o ninar sem ter menino?
De que vale o final sem o começo?


In Canto do Vigário
Rui Rocha

Thursday, May 10, 2007

A estrada da Vida
Elliott Erwitt
E nao viver é morrer mais cedo...

"...Feito essa gente que anda aí brincando com a vida, cuidado companheiro, a vida é pra valer.
Nao se engane nao, tem uma só. Tudo mesmo o que é bom, ninguém vai me dizer... Que tem de ser provado, muito bem provado, com certidao passada em cartório do céu e assinado em baixo. Deus!!... e com firma reconhecida. A vida nao é de brincadeira, amigo. A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Há sempre uma mulher á sua espera com os olhos cheios de carinho e as maos cheias de perdao. Poe um pouco de amor na sua vida, como no seu samba. Eu, por exemplo, o capitao do mato Vinicius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil, na linha directa de Xangô, Saravá..."

Vinicius de Moraes

In Cafe La Fusa

Mar del Plata, Buenos Aires

Wednesday, May 02, 2007


Como dizia o poeta


Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Nao há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão

Vinicius de Moraes



Wednesday, April 25, 2007
















De tanto querer,
nos mares navegou o mundo
Aos mares querer,
o quiseram por querer tudo
Aos mares se fez,
nos mares morreu imundo
E sem viver,
jaz nos mares, vive no fundo
Pois quem sem querer, morreu um marinheiro vagabundo...

Wednesday, April 11, 2007

Abre-se o sopé dessa serra, e a vida surge por caminhos que nunca foram pisados, pelo menos em vao. Como que deixados em investidas futeis, de alguém que nao quer voltar pela mesma rota, as pedras gritam de desejo e os musgos acomulam a camada putrefacta de saudade. Deixei esses caminhos, cortei mato, baixei ao vale, segui só. Eu e o meu eu, somos grandes amigos, mas raramente o vejo, ele insiste em caminhar com três dias de avanço, apenas vejo os seus vestígios nas grutas que frequenta, apenas o vejo de vez em quando, quando ele decide esperar por mim.
...
-E afinal, caminhas para quê?
-Porque se nao caminhar nunca chegarei lá?
-Nunca chegarás aonde?
-Aonde os caminhos me levarem, ao destino (final) que deverei contemplar.
-E como sabes que é o destino (final), se nao sabes o seu caminho?
-Porque viverei cada destino como se fosse o último, aprendi a viver assim...
-E porque vives assim?
-Porque me esqueci como é viver de outra forma, porque me tornei em alguém que ainda estou a conhecer. A vida é-nos o que somos para ela, ninguém deve seguir para nenhum azimute, devemos seguir os contornos, porque só nos contornos está o verdadeiro caminho.
-E se os contornos te levarem para onde nao queres ir?
-Seguirei os mesmos contornos de volta. Sabes, deixo rastros de migalhas, deixo coisas nos meus caminhos para nunca me esquecer deles, pelo menos ao vê-los recordo-os.
-E porque nao páras de caminhar?
-Porque o meu coraçao agora diz-me que devo seguir. Porque a minha razao nao me deixa desistir. Porque nestes caminhos encontrei a minha felicidade.
Porque de facto existem dois tipos de gente. A que tem de caminhar e a gente que só sabe parar. Sei que nao vou caminhar para sempre, sou um Homem de família, prezo tanto a liberdade como a companhia saudável da paixao e do amor. O que sei é que todos os que vivemos, nós bichos da sociedade, algum dia temos de parar e meditar a vida, mas sei que quando isso me acontecer, vi todos os caminhos que consegui e quis, serei por isso um Homem completo, uma pessoa mais feliz.
-E quem nao é assim?
-Temo nao ter resposta. Penso que cada um sabe de si. Eu apenas sei de mim, sei que sou feliz, só isso me importa, já nao tenho mais ninguém para cuidar, sou só, e só buscarei aquilo que me afastar da solidao...
-Nos caminhos perdidos da tua vida...
...
Ausencia - Carla Fache



Ausencia

Apenas te he dejado,
vas en mí, cristalina
y temblorosa,
o inquieta, herida por mí mismo

o colmada de amor, como cuando tus ojos
se cierran sobre el don de la vida
que sin cesar te entrego.
Amor mío,
nos hemos encontrado sedientos
y nos hemos bebido todo
el agua y la sangre,
nos encontramos con hambre
y nos mordimos como el fuego muerde,
dejándonos heridas.

Pero espérame,
guárdame tu dulzura.
yo te daré también una rosa.

Pablo Neruda

Tuesday, April 10, 2007




O Dia da Criacao

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade

Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado...

Vinicius de Moraes

Monday, March 12, 2007


Carpe diem


Carpe Diem! Aprovecha el día,
No dejes que termine sin haber crecido un poco,
sin haber sido un poco mas feliz,
sin haber alimentado tus sueños.
No te dejes vencer por el desaliento.
No permitas que nadie te quite el derecho de
expresarte que es casi un deber.
No abandones tus ansias de hacer de tu vida
algo extraordinario...
No dejes de creer que las palabras, la risa y la poesía sí pueden cambiar el mundo...
Somos seres, humanos, llenos de pasión.
La vida es desierto y tambien es oasis.
Nos derriba, nos lastima, nos convierte en
protagonistas de nuestra propia historia...
Pero no dejes nunca de soñar,
porque sólo a través de sus sueños
puede ser libre el hombre.
No caigas en el peor error, el silencio.
La mayoría vive en un silencio espantoso.
No te resignes...No traiciones tus creencias.
Todos necesitamosaceptación,
pero no podemos remar encontra de nosotros mismos.
Eso transforma la vida en un infierno.
Disfruta el pánico que provoca tenerla vida por delante...
Vívela intensamente, sin mediocridades.
Piensa que en tí está el futuro
y enenfrentar tu tarea con orgullo, impulso
y sin miedo.
Aprende de quienes pueden enseñarte...
No permitas que la vida te pase por encima
sin que la vivas...

Walt Whitman

Wednesday, February 14, 2007

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

Chico Buarque

Barco encalhado


Se todos os homens fossem vazios,
Se todas as águas secassem rios,
Se tudo o que existe fosse em vao,
Nao existia amor pela vida
Nao existiria a própria vida,
Nao existia o perdao,

O mundo nao se redimia,
Ao calor da paixao,
Nao seria este dia,
mais um dia, outro dia,
Dos dias de solidao...

...A todos os barcos que encalharam e aos seus bancos de areia...

Saturday, February 03, 2007

O teu jeito…

Esse jeito vazio, esse silêncio,
Lança a ancora dolorosa do pesadelo,
Sendo eu e se sou eu o teu tormento,
Serei o errante eterno, um flagelo…

Como as bombas que caíram no meu leito,
Não caias mais, não com indiferença,
Sou ingénuo, sou em vão, sou carne fresca,
Álibi padrão da verosimilhança…

Ao contrário do que por nós foi inato,
Os caminhos ditam a contrariedade,
Eu não segui feliz sem ser lamento,
E tu esqueceste-te da saudade,

Neste jeito complexo de desabafo,
Limpo o céu, procuro a esfinge do pensamento
Deixo-te seguir o teu caminho, apenas deixo,
E liberto em versos, o calor do desalento…

E em vão esse teu jeito não modifica,
A vontade e o teu gosto pelo frio,
Em contínua mutação ele petrifica,
O crisântemo lindo que pariu…


...Para alguém que se esqueceu de mim e que tem as suas razões!
Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;

Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.
Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.
Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.
Pobre esqueleto branco entre nevadas roupas!Tão lívida!
O doutor deixou-a. Mortifica.Lidando sempre!
E deve a conta à botica!
Mal ganha para sopas...O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.
Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.
A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A ImprensaVale um desdém solene.
Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.
Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.
Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.
Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.
A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!
Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e, todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!
Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas?
Impressas em volume?
Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde

Monday, January 29, 2007

Vejo-me caminhando no caminho da inconstância, gosto de ser como aquele vagabundo que tanto imagino, até o acho parecido comigo. Sem algemas para me arrastar, sem roupa às riscas, serei talvez a liberdade oculta em mim nesta prisao infinita do meu Eu. Sombras que se reflectem nas paredes desta cela, sombras que vejo saindo de mim, eu que sou uma dessas sombras e muitas vezes nao me encontro quando olho... ¿Raios partam as sombras?...
Divago sobre as minhas leituras de matiné, encontro-me perdido na minha imaginaçao, sinto a ficçao muito proxima da realidade. Deixo-me levar pela irresponsabilidade, que contudo, ainda está bem presente dentro de mim e por causa disso sinto-me mais feliz do que nunca, porque esta fera fictícia liberta-me do que é real... ¡Bolas!¿Como sei que nao é solidao?
E deixo-me levar por este navio. Muitas vezes gosto de largar o leme, deitar-me no convés ao sol, e, na calmaria deste espelho azul claro, durmir um bom bocado, deixando que as brisas frescas de mar, me ditem onde devo estar quando acordar. E este caminho de todas as direcçoes leva-me para a direcçao que me compete seguir. Sim, porque o destino apesar de nao estar definido, segue sempre para o rumo que devo tomar, porque sem rumo nao teria razao de viver, e sem razao de viver, seria mais um morto-vivo na sociedade...¿E sem amor próprio nao seria exactamente a mesma coisa?...

Tuesday, January 23, 2007





Olhos nos olhos

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
Voçê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz...

Chico Buarque

Sunday, January 14, 2007














Destino do Vagabundo


Na manhã volta de novo embriagado,
Sujo de lágrimas e de tudo o que pôs lado,
Voltando a casa num triste lamento,
É um ícone saudosista do sofrimento,
Vive escondido no antros do fado,
Alguém que não sabe fugir do passado,
Fugindo em vão da penitência…


Na noite acorda com o coração gelado,
Lavado de mágoa e um olhar ressacado,
Sai para a rua num inerte sentimento,
De solidão gasta e quem sabe tormento,
É um vanguardista da vida, é um homem acabado,
Cuja eloquência bebe, na tasca do lado,
Para quem a vida perdeu a essência…

E assim escondido, triste, vencido,
Põe termo à vida num copo de vinho,
Chorando como quem não chora, ele grita,
Esquece a vida, relembra o amor,
Que canta meio engasgado e com dor,
Num arpejo de saudosismo…